terça-feira, 26 de agosto de 2014

CANSEI...


CANSEI...


Cansei de ler de escrever
De estar neste meu afazer que não leva a nada
Chega de inventar e olhar parada
O que se passa aqui e ali já não me importa
Estou esgotada neste quarto
Que apesar da sua enorme varanda rasgada
Me atrofia, me prende e amarra
Me sufoca e deixa paralisada
Estou enjoada de tudo
De todas as coisas estou cansada

Metida comigo, comigo vivo horas a fio
Sem ver ninguém, sem dizer ou ouvir palavra.
Quero gritar, mas para quê? 
Setá que sem ninguém me ouvir eu aliviava?
São muitos meses que voaram e eu neste estado
À espera do tudo, de algo, de nada 
Falta-me tudo
Quem sabe não me falte nada de nada
Mas não estou bem, isso eu sei
Estou cansada desta solidão
Deste vazio que me envolve, me atrofia e tolhe.

A minha casa nem a percorro
À minha varanda rasgada
Nem vou
Olho de dentro o céu e vejo-o enevoado
Deve estar como eu, cansado
Triste, porque à noite nunca está estrelado.


Que foi que aconteceu,
Que se passa na minha rua?
Que se passa comigo?

Por aqui tudo se desmancha
Tudo se modifica e transforma
Nada parece ter mais graça alguma
Nem eu, nem a minha casa, nem a minha rua
Nem de dia o céu nem de noite a lua
Quem sabe porque alguém roubou as estrelas 
E as levou para alguma rua 
Mais triste e escura que a minha
Mais desgraçada ainda...

Inês Maomé