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domingo, 8 de novembro de 2015

UM POEMA SEGUROU-ME AS MÃOS




UM POEMA SEGUROU-ME AS MÃOS 


Estava eu sentado, a escrever um poema,
quando o poema – esse mesmo poema –
me segurou as mãos e me disse que eu as tinha frias.

“Tens as mãos frias”, disse-me o poema que escrevia,
e eu, levando nelas o poema – esse mesmo poema –
juntei-as, e entrecruzei os dedos delas sobre a mesa.

Olhei as mãos, descruzei os dedos e separei-as,
e larguei o poema que escrevia, para escrever outro.
Larguei o tema «saudade» e peguei no tema «amor».

Senti, logo depois, que o poema – o novo poema – 
me puxou pelas pernas. “Levanta-te”, disse-me ele.
E eu vim, amor – para que me segurasses as mãos.

Sérgio Lizardo

In "Poesia com nomes de mulher"

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

O SÍMBOLO QUÍMICO DA POESIA É "O2"


Imagem - Google


O SÍMBOLO QUÍMICO DA POESIA É "O2"


O símbolo químico da poesia é "O2". Poesia respira-se
e, não sendo ar, enche-nos o peito.
Também se lava com ela o rosto de quem sofre 
e até se mata com ela a sede de alguém,
mas é líquido que poesia é feita de palavras...
que chovem sobre ouvidos dizendo "sorri, sofredor"
e que chovem sobre lábios dizendo "sorve a vida".
Poesia, mesmo passada, move todos os moinhos,
mas não é água, é frágua: também um quente "H2O".
Poesia pode ser só um verso; também um abraço – só.

Sérgio Lizardo

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

(AMOR)


(AMOR)


Na prática, o amor é teoria
e, em teoria, o amor é prática.

É o destino e cada passo,
a chegada e o percurso,
o ponto final e todas as vírgulas.

É o desejado e o carnal,
toque de olhar e toque de pele.
Coisa de desejo-dor e de ter-prazer.

O tanto que te queria
e, depois de te ter já,
o tanto que te quero manter.

É a máquina projectada antes
e, diariamente, a manutenção dela.

E é o pensar de verbos bonitos
e o deixá-los descer para a voz.

Sérgio Lizardo

sexta-feira, 26 de dezembro de 2014

BOM NATAL!


Foto do autor - Penafiel


(BOM NATAL!)



Natal é amor. Só pode ser. Não pode ser nada mais.
Mas, se pode ser mais, é mesmo muito pouco mais.
Natal é nascimento. 
Que nascimento não deriva de amor

ou não dá origem a um amor?
Natal é celebração de aniversário de um nascimento.
Que aniversário não celebramos por amor a alguém
ou pelo amor que alguém nos tem?
[Por amizade também – mas ela é, também,
um derivado de amor]
Natal é amor, sim. E é o que vem depois do desamor,
que, depois de um, há um novo amor que nasce,
mesmo que não num dia vinte e cinco,
mesmo que não num mês Dezembro,
mesmo que não se acredite, ou não se perceba,
que o Natal é isto, sim.
Sim, é isto o Natal. E é reencontro após saudade,
abraço com braços e peito após um com almas longe,
reconciliação após desavença,
importância após indiferença,
atitude após inércia,
carinho sem presente após presente sem carinho,
e qualquer outra coisa melhor que nasça
depois de outra pior que, por fim, desvaneça.

Se não é, que a humanidade do Homem renasça,
e que se venha, de novo, a dar à luz o bem de todos.

Sérgio Lizardo

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

ÉS LINDA MESMO


ÉS LINDA MESMO


Já te pintei o rosto com a arte
que, à minha maneira, pratico 
– várias vezes, a maioria das quais,
auxiliado pela obviedade,
dizendo, por estas ou outras sinónimas palavras: és linda.
Porque és. És linda mesmo. Sabes que o és mas,
mesmo sabendo, como todas as que o são e sabem,
já ruborizaste acima das alas do teu sorriso,
quando a minha voz te pincelou os ouvidos
com um avermelhado de timidez ligeira 
que, sem tempo, te escorreu para o rosto.
Poeta que se preze serve para isso mesmo: para pintar.
E,se alguém me chama poeta do amor,
em que outra tela que não o teu rosto eu haveria de pintar?
Pinto também sobre paisagens, mas não as conheço assim…

Sérgio Lizardo

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

AMA-SE, PONTO.


AMA-SE, PONTO.


Ninguém acha que ama: ninguém acha que existe,
ninguém acha que tem fome, ninguém acha nada
quando aquilo a que se refere ou é ou não é, certo?

Tem-se fome, ponto. Existe-se, ponto. Ama-se, ponto.

Tem-se fome de existir, e isso é amar.
Existe-se com amor, e isso é fome de mais.
Ama-se com fome de existir, e isso é certo. 

Mas ama-se, ponto – até desde antes de se concluir que se ama.
Ainda que não se ache logo que é assim, vai-se ver e é, ponto.

(Tenho agora como certo que te amo
desde antes das dúvidas que não tive!)

Sérgio Lizardo

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

ELA JÁ SE CHAMOU SILÊNCIO...


ELA JÁ SE CHAMOU SILÊNCIO...


Ela já se chamou ‘silêncio 
a brotar dos lábios debruados com um sorriso’.
Agora não. Agora tem nome. Pese embora cale tudo,
pese embora quando ela sorri ele não ouça mais nada
– e também não veja mais nada.
Na verdade, quando ela sorri, ele nem sabe
se quer ouvir ou ver o que seja. Para esses momentos,
não está previsto que ele tenha dois pensamentos,
só que ele se encante ao ponto de esquecer o acessório.
Quando ele a conheceu, o principal foi o sorriso. E ainda é.
Ela já se chamou ‘silêncio 
a brotar dos lábios debruados com um sorriso’,
mas é agora qualquer sorriso digno desse adjectivo
que traz em brado o nome dela. [Se é amor?]

Sérgio Lizardo

quinta-feira, 17 de julho de 2014

POR SENTIR AMOR


POR SENTIR AMOR


Se fechas os olhos quando o vento te sopra nos olhos
e sugas, da chuva, as gotas que te caiem nos lábios;
e se, de olhos cerrados, vês aquela que amas
e na língua reconheces o gosto de um beijo dela,
tu és um poeta. 
Mas se acaso não tens tu um poema que te cresce,
o que tens na vista e no palato são restos de ontem.
Qualquer poeta desejaria ter tido um ontem igual ao teu
para, sem ter de fingir, descrever tudo do mesmo jeito,
por sentir amor.

Sérgio Lizardo

sábado, 28 de junho de 2014

AMAR-SE É VIVER-SE




AMAR-SE É VIVER-SE  


Proponho, para ti, a fundação de um lugar novo,
com o teu nome a dar-lhe o nome.
Será, esse lugar, um espaço maior do que o teu corpo,
só que dentro de ti mesmo.

Se te sentes deslocado
(peixe sem mar),
é porque antes te perdeste de um lugar assim:
também dentro de ti, 
também enorme,
e também com nome igual ao teu.

Entra no teu âmago – é aí que, ao mesmo tempo,
te reencontras e te deves instalar;
não te percas de ti; está tudo aí.

Depois, viaja pelo mundo 
(nem precisas de ir muito longe),
e vai a lugares com nomes de outras pessoas
e, quando te renderes aos encantos de um,
privilegia-o como destino teu,
visita-o, amiudadamente, 
e deixa-te voltar – sempre!

[Vai delongando as tuas estadas nesse alguém…]

Foi sempre assim que se apaixonaram
os que, como eu, antes se perderam.

Vivo, hoje, simultaneamente,
em dois lugares – bem mais feliz! 
Seus nomes: o meu nome e o nome dela.

Sérgio Lizardo

quarta-feira, 25 de junho de 2014

POETICAMENTE


Imagens do Mar


POETICAMENTE 


Moram no mar do teu cabelo, os meus dedos.
E são peixes que nadam, em idas e voltas,
e que por vezes saltam, em desafio à física,
contrários à biologia,
ou simplesmente aventureiros personagens de fábulas
que ousam ir para o teu rosto,
esse céu que os chama.

E é lá, nesse céu,
abaixo do por de Sol, feito dos teus olhos que fecham,
que pairam, já feitos gaivotas,
assistindo, em baixo,
a um barco-homem que se faz homem-boca,
abeirando-se
de uma praia-mulher que se faz mulher-boca,
e que então se tocam
(em metáfora),

defendendo a poesia.

Sérgio Lizardo,
in "A que soam os amores?"

quarta-feira, 18 de junho de 2014

POETICAMENTE


Imagem de Sérgio Lizardo


POETICAMENTE  


Moram no mar do teu cabelo, os meus dedos.
E são peixes que nadam, em idas e voltas,
e que por vezes saltam, em ...desafio à física,
contrários à biologia,
ou simplesmente aventureiros personagens de fábulas
que ousam ir para o teu rosto,
esse céu que os chama.

E é lá, nesse céu,
abaixo do por de Sol, feito dos teus olhos que fecham,
que pairam, já feitos gaivotas,
assistindo, em baixo,
a um barco-homem que se faz homem-boca,
abeirando-se
de uma praia-mulher que se faz mulher-boca,
e que então se tocam
(em metáfora),

defendendo a poesia.

Sérgio Lizardo

in "A que soam os amores?"

sexta-feira, 13 de junho de 2014

NOS OLHOS, O VERBO


Imagem de Sérgio Lizardo


NOS OLHOS, O VERBO


Se é para me ouvires falar de amor
não desvies dos meus olhos os teus
(e não estranhes que eu diga tanto sem a boca,
e te sintas beijada sem que ela toque na tua).
Olha-me. Posso olhar-te bem alto,
que nunca os olhos ficarão roucos.

(Aos lábios, eu mordo-os até,
para que não desconvenham.)

Amo-te.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

POEMA AO INVENTOR DO PORTUGUÊS




POEMA AO INVENTOR DO PORTUGUÊS


Obrigado.
Obrigado pela palavra saudade – de verdade.
Ela tem a métrica certa,
é aberta,
ainda que nela só caibam todas as razões do mundo
para que cada uma das pessoas que o mundo contém,
encaixe os milhões de razões para dizer que alguém
a deixou assim: com um interior que perdeu o fundo.
Obrigado.
Obrigado por juntares pronomes pessoais aos verbos:
«amo-te», assim, é bem mais ligado, é até mais dado
– é como dizer «este amor que sinto é por ti»
ou «este amor que sinto é teu».
Obrigado.
Obrigado, ainda, por me deixares usar a língua,
e, com todos os teus verbos e termos,
me teres ajudado,
a passar para poemas 
o que muitas vezes nasceu como silêncio meu,
e outras vezes como encanto, 
colhido do olhar de quem me faz bem. 
Sou-te, eternamente, grato.

Sérgio Lizardo

segunda-feira, 2 de junho de 2014

O AMOR É DAS ESSÊNCIAS, NÃO DAS CIÊNCIAS




O AMOR É DAS ESSÊNCIAS, 

NÃO DAS CIÊNCIAS 


O que tu amas em alguém não está no que tu abraças
(por isso muitos amaram sem terem abraçado amados).
O que tu amas em alguém,
se é pele, é outra pele por baixo da pele;
se é o olhar não é o dos olhos, é do que vem de dentro deles;
se é o calor do aconchego, não é a temperatura;
se é o sorriso não é o da boca;
se é a forma de andar,
se é o modo de mexer,
se é o jeito de te tocar,
nada tem que ver com o corpo ou seu apelo,
tem que ver com as naturezas dos dois, que nasceram irmãs,
e por isso se querem e se cuidam sem se questionarem.
O que tu amas em alguém é o fado comum,
é a irmandade dos não irmãos,
a amizade dos que se são mais,
a companhia que quilómetros no meio não afastam,
o desejo que a idade não consegue tirar e transforma.
O que tu amas em alguém é a sua inevitabilidade,
a sua imprescindibilidade,
a sua não substituibilidade
e o que te faz até seres tu, e te confere verdade.
(E o que tu amas em ti é o reflexo do que é de quem amas.)

Sérgio Lizardo

sábado, 31 de maio de 2014

SÓ QUEM NOS AMA NOS DÁ O MUNDO




SÓ QUEM NOS AMA NOS DÁ O MUNDO


Sempre existiram pessoas que exigiram mais e mais.
Mais amor, mais amizade, mais dos outros sentimentos. 
E mais de cada uma de todas as coisas,
mais de cada um...a de todas as outras pessoas,
e mais, até, delas mesmas.
Mais rio para todos os rios, mais mar para todos os mares,
mais azul para fazerem mais céu,
e mais horizonte e mais ângulo de visão
para terem mais mundo. 
– E há umas pessoas que, com um singelo amor apenas,
sem que nunca o tivessem pedido, ou tão pouco exigido,
têm também tudo isso. 
Não sabem que o que têm é tudo isso,
e são, certamente também por isso, muito mais felizes.

(Só quem nos ama nos dá o mundo – e trá-lo dentro.)

© Sérgio Lizardo

quarta-feira, 28 de maio de 2014

CRENÇA




CRENÇA


Já te sentiste diferente assim:

Num desses dias, por um minuto,
abriste os olhos devagar,
levantaste a cabeça
e percebeste
que já os olhos abriras mais do que era uso até então,
e sentiste-te grande…
Olhaste para baixo
e viste os teus pés mais compridos,
as tuas pernas mais longas
e as tuas mãos agigantadas…
De espanto movida, contorceste o teu tronco,
levantaste um pé depois do outro, num passo,
e com a força do impulso dos braços, nesse teu passo,
sacudiste as folhas das árvores, 
levantaste o pó do chão
e fizeste rolar umas pedras do teu caminho…

Já te sentiste por certo assim:
com o que chamo de crença,
pois que, só crendo,
minguarias distâncias,
removerias barreiras
e te sentirias tão grande…!

(tens impossíveis possíveis de ter…)

Sérgio Lizardo

sexta-feira, 23 de maio de 2014

SUSPIRO-TE! (MEU AR)




Suspiro-te! (meu ar) 


Estou a ponto de ser sem forma nem cor. Estou a ponto de ser ar, apenas ar. De ser o ar que se vai distinguir dos outros pelo cheiro. E será o teu cheiro: o do teu perfume também mas o da tua pele sem ele, em proporção maior. Para seguir o teu rasto, estou a ponto de me esfumar – dizem que o amor tudo pode. E tem que ser hoje. Hoje está vento, e venta nessa direção. Estou a ponto de ser o ar que se desloca e chega. De entrar pela frincha da tua porta. De pedir licença aos ares que aí estejam, e então fluir, fluir, fluir mais por entre eles. E subir, subir, subir não muito – não és alta. E ficar, ficar, e esperar: que termines de expirar, que inspires depois, que me inspires. Estou a ponto de ser o teu respiro. Entretanto, suspiro! Suspiro-te! (meu ar)


Sérgio Lizardo 

terça-feira, 20 de maio de 2014

NÃO SERÁ POR CIÚME




Não será por ciúme


Um dia, quando as palavras escritas tiverem som
e as palavras ditas tiverem imagem,
os poemas de amor fugirão às canetas e aos papéis,
para ficarem na garganta ...e nos olhos do poeta.
É, no meu caso – no nosso caso, amor –,
porque se ouviria o teu nome e se veria o teu rosto,
e eu posso não estar, e não te poder ouvir nem ver.
(Não será por ciúme.)

segunda-feira, 19 de maio de 2014

IMPERFEIÇÃO




IMPERFEIÇÃO


Não sei traduzir para palavras 
o silêncio que se mete entre os olhos de duas pessoas 
que só têm amor para se dar 
e um beijo para acontecer 
em alguns segundos e poucos centímetros. 
Será por ser, eu mesmo, o ator que contracena contigo 
no que podia dar um poema perfeito?
Precisava de sair do meu corpo para ver
mas, e depois? Como sentir os teus lábios?
Basta-me, pois, o silêncio perfeito 
– não ambiciono a perfeição para os meus poemas.

       Sérgio Lizardo  

sexta-feira, 16 de maio de 2014

NO DIA EM QUE NÃO TE BASTAREM AS PALAVRAS DE AMOR



No dia em que não te bastarem as palavras de amor


No dia em que não te bastarem as palavras de amor que te disserem,
não troques de ouvidos por outros ouvidos
nem de dizente que as diz por dizente diferente.
No dia em que não te bastarem as palavras de amor que te disserem,
diz algumas também, e enxerga. – Verás como se reproduzem.

No dia em que não te bastarem os gestos de amor que te fizerem,
não troques de olhos por outros olhos,
não troques nada de nada seja pelo que for. Oferece tempo;
o tempo, para quem te ama, é o chão onde semeia atenção
para que colhas depois, no fundo, aquilo que mais importa.

Se deixares que o amor não beba do copo de onde a amizade bebe,
antes de morrer de sede,
ele deixará de ver e secará.
Se amas, mata as sedes que o amor faz. Serve-te – sem copo, em corpo,
umas vezes medido, outras desbordado.

Sérgio Lizardo